segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jornal do Brasil

[07/MAR/2005]

Recomeço ao lado de amigos

Cantora Dulce Quental faz show de seu primeiro CD em 16 anos e recebe no palco Frejat, Paulinho Moska e Ana Carolina

João Bernardo Caldeira

No dia 13 de abril, a cantora Dulce Quental completa 45 anos de uma longa trajetória. Para muitos, trata-se de uma artista iniciante, mas não é bem assim. Depois do sucesso, nos anos 80, à frente do grupo Sempre Livre (do hit Eu sou free), ela enfrentou tantas dificuldades que chegou a desistir de lançar discos e passou a estudar jornalismo e compor. Amanhã, às 20h, no Espaço Cultural Sérgio Porto, ela apresenta o repertório de Beleza roubada (Cafezinho/ Sony), seu primeiro trabalho em 16 anos. O gostinho na boca é de vitória e recomeço, após tanto tempo longe dos holofotes.
- O disco fala, já no título, de alguém que perdeu alguma coisa no tempo, uma espécie de inocência, e que é recuperada. Minhas primeiras experiências na música foram muito fortes, saí do anonimato com o Sempre Livre. Mas, depois do sucesso, passei por um período mais difícil. Comecei a fazer um tipo de som que obteve prestígio, porém, não uma aceitação popular que pudesse consolidar minha carreira. Fiquei até um pouco magoada e me fechei - afirma Dulce, que chegou a gravar um CD em 94 que jamais foi lançado por falta de gravadora.
Beleza roubada, seu quarto disco, chegou às lojas no final do ano passado, e traz composições próprias, além de parcerias com Zélia Duncan, Paulinho Moska e Roberto Frejat. A cantora gravou ainda a faixa No topo do mundo, também feita com Frejat e gravada pelo Barão Vermelho no disco Puro êxtase (1998).
Para celebrar a carreira, ela fica em cartaz por quatro terças-feiras seguidas, recebendo no palco, pela ordem: Roberto Frejat; Paulinho Moska; George Israel e Leoni; e Herbert Vianna, Ana Carolina e Toni Garrido. O show se baseará nas músicas do CD, mas a trajetória da cantora também será lembrada:
- Esse show vai ser importante para mim porque é uma grande comemoração com artistas que marcaram minha história. Há uma ligação entre nós não apenas musical, mas também afetiva. Não é uma apresentação muito voltada para o passado, mas acabei incluindo Fui eu, do Sempre livre, e Caleidoscópio, do Herbert Vianna, que gravei antes dele e se tornou meu maior sucesso.
Dulce acabou adaptando o repertório de acordo com os convidados. Algumas músicas foram incluídas: com Leoni, ela cantará Fim da estrada (parceria dos dois da época em que ele era do Heróis da Resistência); com Ana Carolina, O melhor de mim, gravada por Ana (de Dulce, Frejat e Moska); com Toni Garrido, Cidade partida, registrada pelo Cidade Negra; com Moska, Bordados de psicodélia e Fino e invisível (ambas parcerias dos dois incluídas no novo CD); e, com George Israel, Girassóis azuis, que será incluída na trilha de América, próxima novela das oito da Rede Globo.
Para a estréia, amanhã, ela e Frejat estão preparando a apresentação de duas músicas compostas pelos dois: Túnel do tempo e O poeta está vivo. Segundo o líder do Barão Vermelho, Dulce conseguiu escrever seu nome na história da música brasileira:
- Estou muito feliz por ela estar de voltar e também de poder prestigiar o novo show. Não que ela precise, mas a presença de todos esses convidados no palco de Dulce Quental ajuda a dimensionar sua relevância para a música pop brasileira.
Frejat ressalta o talento da cantora:
- A vida do artista no Brasil é muito difícil, é complicado construir uma trajetória de permanência. Isso não depende apenas do mérito artístico, são vários os fatores envolvidos. Ela, infelizmente, não os teve a seu favor. Ainda assim, o talento de Dulce sempre esteve presente como uma compositora gravada por tanta gente.
Após o Sempre Livre, ela investiu numa mistura de gêneros musicais incomum para a época. Hoje, o público está mais preparado para receber sua música, assim como ela também está mais preparada para encarar o público:
- Atualmente, há mais maturidade no cenário pop. No final dos anos 80, não havia uma sonoridade híbrida. Depois, uma geração de artistas como Zélia Duncan, Moska e Lenine ajudou a quebrar barreiras. Sem querer parecer pretensiosa, meus discos apontam uma tendência que se consolidaria 15 anos depois. Tive que esperar até o mercado amadurecer, e também amadureci. Não estava preparada para o sucesso e nem para o que veio depois dele. Agora, é um recomeço.

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