sábado, 19 de setembro de 2009

RELEASE SHOWS 2010


Dulce Quental
Uma compositora em busca do seu público


É final de ano e o ano passou voando. Com um punhado de canções novas na bagagem e uma trajetória artística de 28 anos de carreira me vi diante do desafio: como viver de musica e composição no Brasil de hoje, quando ninguém mais compra discos?

Fazendo shows, é claro. Mas e o publico, onde está o publico para uma artista da palavra como eu? Sei que ele existe, pois escreve para mim através dos sites de relacionamento. Sei que ele é exigente, pois conhece minuciosamente detalhes da minha discografia. Mas onde ele está?

Resolvi ir a sua cata. Para isso, montei um espetáculo explorando diversas fases da minha carreira. Ela começa no inicio dos anos 80, como vocalista do Sempre Livre, a primeira banda feminina do rock brasileiro; dá uma reviravolta em meados dos 80, quando saio do grupo para assinar com a gravadora EMI, onde realizei três discos solos; passa voando pelos anos 90, onde me dediquei à composição; e renasce em 2004 com a gravação de Beleza Roubada, meu primeiro disco independente.

Mas como juntar tantas fases diferentes num só roteiro sem que o todo desande ou cheire a naftalina? A primeira solução foi a escalação do time. Resolvi, dada as limitações operacionais do momento, montar duas bandas. Uma no Rio, outra em São Paulo. Será mais fácil sair de São Paulo para o resto do Brasil? Não sei. Vamos experimentar.

Para atuar no Rio: Rafael Elfe, cara de Jim Morrison e voz de Renato Russo, tocando um violão de aço estalado, fã de Joni Michel e Nick Drake foi o primeiro achado. João Bani, que já havia tocado comigo não poderia ficar de fora. A elegância econômica e silenciosa da sua percuteria tomou de vez o lugar de um baterista no meu coração. E por ultimo o contrabaixo de Rômulo Duarte, um musico nato, com uma musicalidade que flui sem firulas.

O segundo passo foi me mandar pra São Paulo. Lá reencontrei o baixista Beto Birger, antigo companheiro de banda e de estrada. Juntos, corremos todo o interior de São Paulo lá pelos indos dos anos 90. Beto me ajudou a montar o time que faltava. Escalou Adriano Busko na percuteria e Renê Seguit na guitarra. Fizemos o primeiro ensaio. O time de São Paulo estava formado. Com essas duas formações mais a base dos meus violões, de nylon e aço, tomei a coragem que faltava para cair na estrada.

Confesso que tocar pela primeira vez quase que todo o show produziu em mim uma razão a mais. Era o que faltava para completar o meu aprendizado como artista. Porque cantar sendo acompanhada por mim mesma, com a pulsação do meu violão, fez toda a diferença. Eu não sou uma instrumentista virtuosa, longe disso. Mas poder botar o sotaque do meu violão nas composições que cantei durante todos esses anos foi como recompor de novo essas mesmas canções, aproximando-as da minha dicção. “Caleidoscópio” e “Fui eu”, de Herbert Vianna, “Inocência do Prazer”, de Cazuza e George Israel, “Natureza Humana”, versão do clássico de Michael Jackson, revisitada pela pena afiada dos irmãos Jorge e Waly Salomão, “Esse seu jeito sex de ser”, sucesso da época do Sempre Livre; todas essas canções ganharam novos sabores com essa nova formação.

E a compositora não ficou de fora. Canções como “Não atirem no pianista”, do meu segundo disco pela EMI, Voz Azul, “Capuccino”, parceria com Zélia Duncan, “Bordados de Psicodelia”, com Moska, e a atualíssima “Resta”, com Ana Carolina e Chiara Chivelo; mais os já clássicos sucessos do Barão Vermelho, “O Poeta está vivo” e “Pedra, flor e espinho”, representam as diversas faces da compositora. O “Amor e Sexo”, de Rita Lee, e “O instante de Dois”, da também paulista Cibelle, vem reforçar o time das Luluzinhas compositoras. E pra terminar, as boas novas “Mascoc Marques”, “Ponto G” e “Espinoza e o sol”, novas canções de uma artista em busca do seu publico. Que ele apareça!

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