CORREIO DA BAHIA
Uma outra garota de Ipanema
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Hagamenon Brito
Ex-Sempre Livre (anos 80), Dulce Quental lança CD após 15 anos sem gravar
A cantora e compositora carioca Dulce Quental, 44, está de volta. Desde 1988, quando gravou o seu terceiro disco solo, Dulce Quental, ela não lançava nada. Quebra o longo jejum agora com o delicado Beleza roubada, gravado em 2003 e editado pela Sony sob licença do selo da artista, o Cafezinho Music.
Durante o tempo em que ficou longe dos estúdios, Dulce compôs letras para o Barão Vermelho, Cidade Negra e Ana Carolina, entre outros, trabalhou numa livraria de Ipanema, casou com o produtor Carlos Alberto Sion, concluiu o curso de jornalismo e teve a pequena Alice, hoje com 8 anos. Viveu, enfim.
Essas experiências, de uma forma ou de outra, povoam as letras e a ambiência musical do álbum produzido por Dulce, Vinicius Rosa, Damien Seth e Sasha Amback. Uma mulher descobrindo coisas, encontrando escritores, tomando capuccino. Uma artista pop dos anos 80 em meio às transformações do mercado.
Sucesso nacional na explosão do BRock com o grupo feminino Sempre Livre (veja boxe), Dulce Quental lançou três discos solo antes de afastar-se voluntariamente do show business - e essa decisão coincidiu justamente com o surgimento de uma nova geração de artistas e uma fase de transição da indústria.
"Eu havia feito três discos e renovado contrato com a EMI. Tinha prestígio, mas os discos não haviam vendido bem. Na hora de gravar o quarto, percebi uma comparação (até inevitável) com Marisa Monte, que já começara a carreira vendendo muito. Senti certa forçação para que me tornasse mais comercial e preferi rescindir o contrato", revela, por telefone.
A compositora admite que talvez não tenha conseguido conciliar arte e indústria. O impasse resultou numa crise pessoal, na gravação de um disco com o produtor Nilo Romero, em 1994, que nunca foi lançado ("Espero viabilizar isso um dia", diz), e na marcante experiência de trabalhar na Livraria da Travessa.
"Eu cuidava do marketing da livraria. Foi interessante, porque era o oposto da minha condição de artista, uma aprendizagem prática do mercado, um ponto-de-vendas, o encontro com pessoas diferentes", lembra. Realimentada, Dulce se animou, deixou o emprego, vendeu o carro e gravou Beleza roubada.
A bonita faixa-título do CD evoca o clima do ex-trabalho: "Ali, entre milhões de livros descobri/ Meu desconhecimento do mundo conheci/ Ali, entre Foucault e Shakespeare/ Todas as dores do amor experimentei/ Toda beleza roubada encontrei/ Quer saber o que aprendi?/ Nenhum livro vai ensinar...".
Na livraria, Dulce também conheceu Fernando Sabino e trocou correspondência com o escritor mineiro morto no último dia 11, aos 80 anos. O encontro, promovido por Verônica Sabino, cantora e filha do autor, é narrado na canção O escritor. A faixa termina com um sample de Fernando Sabino lendo um trecho de O grande mentecapto, acompanhado por Francis Hime ao piano.
Parcerias - Coração musical da bossa nova e no qual Tom Jobim compôs jóias como Se todos fossem iguais, Chega de saudade, Desafinado, Samba de uma nota só, Insensatez, Ela é carioca e, claro, Garota de Ipanema, o bairro de Ipanema - onde Dulce mora - é personagem central das histórias de Beleza roubada.
A própria bossa impregna o disco como nenhum outro trabalho da compositora. Uma neobossa que se espraia e ganha tempero nas programações eletrônicas e teclados de Sasha Amback e Damien Seth. "É uma das minhas influências, mas evito os clichês. É algo mais estilizado. Sion diz que eu não faço bossa nova, que quem faz bossa é Paula Morelenbaum" (risos).
Assumidamente melhor letrista do que melodista, Dulce apresenta parcerias com Zélia Duncan (Capuccino), Moska (Bordados de psicodélia), Thiago Trajano (Ipanema) e Frejat (No topo do mundo e Conferências sobre o nada, esta dividida ainda com o escritor americano Allen Ginsberg, cuja voz é sampleada).
Dulce Quental está de volta, se é que um dia ela se foi. Beleza roubada dá continuidade à construção de uma obra pop estilosa, feita com toques de bossa, folk, blues e literatura. O mundo já não é o mesmo de 1984, nem de 1994, mas uma nova janela se abre para esta outra garota de Ipanema. Viver é a senha.
No olho do furacão do BRock
Dulce Quental foi vocalista do Sempre Livre, grupo feminino da fase new wave do rock nacional. Em 1984, em plena explosão do BRock, o país inteirou cantou o hit Eu sou free, seguido de Esse seu jeito sexy de ser. O sucesso e a banda duraram pouco, mas Eu sou free virou memorabilia pop de uma geração.
Foi bom para você, Dulce? "Foi muito divertido. Fiquei no grupo de 1983 a 1985, saí do anonimato para a fama com 23 anos. De repente, estava fazendo cinco shows por semana sem estar preparada para aquilo. Deixei o Sempre Livre porque bateu o desejo de crescer profissionalmente. Nos 80, a gente iniciava a carreira sem ter o preparo de uma Marisa Monte ou uma Adriana Calcanhotto, que já estrearam bem profissionais".
A comparação entre gerações chega à era 2000: "Acho o jovem de hoje meio imbecilizado. A sua ideologia é a do consumismo. Nos anos 80, queríamos ser diferentes. Hoje, todo mundo faz tudo para parecer com alguém e ser aceito pelo grupo. Mas acho que a geração de minha filha terá outros valores".
FICHA
Disco: Beleza roubada
Artista: Dulce Quental
Produção: Quental, Vinicius Rosa, Damien Seth e Sasha Amback
Gravadora: Cafezinho Music/Sony
Preço: R$36 (em média)
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